Paulo menino ou pequeno paulinho e as férias em jacarepaguá - Parte 1

Fiquei com pena quando vi levarem o porco para o abate

Fiquei com pena quando vi levarem o porco para o abate

Todo mundo tem recordações fantásticas da infância e normalmente essas são as melhores histórias de nossas vidas (nunca sei quando usar estória, acho que na verdade prefiro a palavra história, dá um peso, traz uma importância pra história. tá vendo, estória parece lorota, história parece coisa séria).

Começando de novo, minha infância foi temperada por passeios de bugre com tio mossy e papai em maricá (cidade provedora das deliciosas cocadas maricá, merece um especial no programa), o papo na cozinha das minhas tias, o gato mia com minhas primas no quarto da minha vó, a sarradinha durante o os trapalhões com as outras primas enquanto meu avô cochilava na sala e as muitas férias que passei na casa de um tio que morava em jacarepaguá, lá era festa: bola na rua, pião, pipa e bolinha de gude, pique-cola americano, churrasco no domingo, carniça, garrafão, a vizinha coroa e tarada, lendas de fantasmas, a velha maluca, os vizinhos te gritando na porta de casa, os apelidos fantásicos (os apelidos valem mais um dois pontos): tatiana sabonete, leandrinho do mega, dedê e dedê sutenido, marcelo que falava muito “mas bem” que virou marcelo marbem que virou só marbal, mecríude, capacete do ayrton senna (eu), numbigo (um moleque que nervoso por ter sido desafiado para uma briga falou “eu num bigo”), pajé pajezinho e curumim (três irmãos), he-man (que era negro), bisnaga, chupp, piaçava (posteriormente só pia), márcio radical, dudu roll, proveta (que era feio), carla nilza (uma menina chamada carla que ganhou o sobrenome como apelido por semelhança física) e continua numa longa lista. Todos com idade entre 12 e 14 anos.

Após uma introdução longa pra caralho vem a história de verdade, que não tem nada a ver com os apelidos. Certa vez titio, que tinha uma caravan verde oliva pintada com tinta perolizada, rodão com calota elegante, o carro familiar perfeito da época, na época em que ainda dava pra comprar carro, na época em que carro não custava apenas 35 mil reais e o pessoal podia namorar na praia (entre vírgulas grande pra caralho, parênteses pra caralho no texto também), titio me chamou pra ver matar um porco.

isso aí, imagina, você moleque descobrindo o mundo, seu tio te chama pra ver um abatimento de verdade, igualzinho aos da fitinha vhs do faces da morte que o vizinho levava na sua casa.

- Paulinho, titio vai mandar matar um porco, quer ver?

- Pode? não vou ficar com medo?

- Tô te chamando porque pode.

- Demorou.

Chegando lá não tive coragem de ver o porco ser morto porque no caminho meu tio me explicou como seria o abate a achei melhor manter o almoço no estômago. Mas na volta percebemos que o bicho era grande demais e não caberia na mala, a solução seria deitar o banco de trás e baixar o do carona para o corpo caber no carro. E onde eu iria? ao lado do defunto. Até aí tudo bem, era um porco morto, já tinha visto leitão, o problema era a estrada de barro. A cada solavanco do carro, o pulmão do porco ainda cheio de ar era pressionado e o mesmo cadáver emitia um grunhido assustador: ããããããhhhhhrrrrrnnnnn. No almoço do dia seguinte fiquei no arroz com feijão e batatas coradas.

Tá, a história não é tão boa mas foi apenas a introdução a esse universo fantástico e improvável nos dias de hoje que era a jacarepaguá da década de 80. e vocês? já viram um abate de alguma espécie? são de jacarepaguá? conhecem a casa na freguesia que tinha um leão? falem! dividam.

Até hoje fico meio cabreiro de comer carne de porco porque geme igual gente.

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Geninho em novembro 28, 2008